Testemunho

Essa é a verdade, somente a verdade. Estive lá. Meu céu é assim e sinto saudade.

Meu céu tem 1 metro e 20 centímetros, franja jogada no rosto e uma janela no sorriso – a janela não era nos olhos naquela época. Tem formato de aviãozinho de papel e cheiro do perfume antigo da minha mãe.

Céu é livre como jamais voltarei a conhecer – e amar. Excesso.

Céu é comer lichia do pé, andar de bicicleta pelo condomínio, invadir o campo de golfe e levar bronca. É verbo no infinitivo. Céu infinito. Céu é ser elogiado quando você faz tudo errado. É comer picolé e se lambuzar sem medo. Sem medo.

Céu é parar de chorar na escolinha assim que vê a mãe virar a esquina. É dar um selinho no alto de uma torre inflável num parque de diversões. Já fui princesa. Céu é neve e carrinho de brinquedo. É briga com irmão e desculpa forçada. É desenho na televisão e pipoca. Tudo besteira, tudo gostoso.
Céu é trampolim na cama e piscina de plástico. É querer ir ao banheiro e não saber como pedir. Estava aprendendo inglês. Aprendizado. Céu é dormir cedo e comer bem. É cinema e missa de domingo.

Céu é não dar a mínima para o que você veste e nem para opinião dos outros. Meu céu virou de século. Tem gosto de receitas fracassadas, bolos queimados. Meu céu tem a tristeza de nunca ter visto meu feijão crescer no algodão. Isso explica a chuva. Céu tem alguns gols e alguns machucados no joelho. Os machucados doíam menos naquela época. Mertiolate ardia. Crescer arde mais.
Meus rabiscos ainda não eram palavras, mas eram coloridos. Espero que vejam minhas palavras como viam meus rabiscos. Naquela época mágica era milagre e hoje ando um pouco descrente. Tenho saudade, repito. Antes eu me perdia no supermercado e agora me perco em quase tudo. Aumentem o volume do microfone, venham me encontrar! Quero ajuda.

Minhas nuvens não são mais feitas de algodão, mesmo assim, são deliciosas, como aquele beijo na torre. Luzes no céu antes eram sinal do Batman. Ele nunca veio me salvar. Parei de acreditar. Queria que fosse só em heróis.

O céu já foi mais transparente. Espero que minha memória ame o céu atual como ama o antigo. Não sobrou nada; nem precisava. Meu céu tem ausência de quem faz meu céu hoje em dia. Mas nem por isso deixa de ser meu. E o seu?

6 comentários:

  1. Gostei do texto, bem escrito.Passa no meu blog pra conhecer tb, se gostar e seguir, sigo de volta!!!
    www.makeolatras.blogspot.com.br
    Bjsss =]

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    1. Obrigada pelo elogio Bia!
      Caso queira conhecer um pouco mais do meu trabalho, o blog é: www.correioelegante.blog.br
      beijo!

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  2. Uau ! Tão profundo.
    Me bateu uma Saudade lendo esse texto.
    Beijos

    http://www.youtube.com/suh13tube

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    1. Olá!

      Fico super feliz que você tenha gostado.

      Se quiser acompanhar mais textos meus, por favor visite:
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      beijo!

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  3. Totalmente apaixonada pelo seu texto. Me fez flutuar por alguns instantes, nesse céu pelo qual todos nós passamos um dia. Ainda sem palavras!

    Seria uma honra ter a dona dessas incríveis palavras no meu blog. Tenho certeza de que amará meu novo texto.
    Um enorme beijo, e mais uma vez:Parabéns!

    confidencegp.blogspot.com

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  4. Oi Alice!

    Que palavras gentis, muito obrigada, mesmo!


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    beijo!

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