Conchas



O mar. Quem o inventou?

A única lembrança que é só minha. Não sei se aconteceu. Existência é supervalorizada.

Começar do fim é coisa de quem se perdeu. Ou nunca entendeu. Começarei com as cores e formas.

Catando conchas pela areia. Numa praia deserta. Ou estava frio? Não lembro. Estava escolhendo as mais bonitas. Sem motivo algum, apenas para colecionar histórias alheias. E admirá-las depois. Criança, roubando a casa dos siris. (Siri precisa de casa?) Criança, predadora natural. Inocência. Mas fiz pela beleza, juro. Quis ser devorada pela beleza do mar. E ficar um pouco mais próxima. Conchas. Somos acumuladores, sabe, eu e você.

Acumulamos. Acumulamos. Cada vez mais. EU QUERO MAIS. Alegrias, medos, experiências, momentos-de-tirar-o-fôlego, fracassos, tropeços, vergonhas, conquistas, mais medos, beleza, conhecimentos, amores, amoras (doces?), gostos e sabores, e dores, AH, dores. Acumulamos e ponto final. Ouse negar.

Tudo que é verdadeiro esconde mentiras. TUDO. E pergunto-me qual era a intenção real. Será que vendem conchas no mercado negro? Fiz pelo dinheiro? Será que vendem amor? Fiz pela atenção? Acho pouco provável, me disseram que por lá só existem mercadorias vitais. Necessárias para sobrevivência. E ah, conchas, digo, abrigos, são mais importantes que amor. Por um lado. Depende do ponto de vista.

E essas imagens cegas que nos acompanham? Quero existir para você de alguma maneira. Criança catando conchas na areia. Você precisa entender isso para depois me entender. Entende? As mais bonitas. Não quis as quebradas. Nem as rachadas. Nem as com pouco brilho. Quis beleza para me sentir bela. Quis ser concha. Não sei se ainda quero. Quero existir para você, disso, tenho certeza.

Estamos presos numa rede de obsessões incuráveis. Serei uma eterna catadora de conchas. Mas ainda quero as mais bonitas. Sempre vou querer.

Ah, esqueci de terminar. Foi um longo dia. Guardei meu tesouro no armário. Escondido num avalanche de coisas esquecidas e imprestáveis. Alguns sapatos velhos, algumas caixas vazias. Lá era nosso altar de comunhão. Lá eu era bela igual minhas conchas. No dia seguinte acordei ansiosa pelo reencontro. Jogaram as MINHAS conchas fora. É, não sabia. Se você não lavar BEM as conchas, por mais lindas que sejam, elas fedem. E incomodam. E são jogadas fora. Como todas nossas preciosas coleções.

A falta é capaz de matar um indivíduo.

6 comentários:

  1. que texto MARAVILHOSO AMEI
    da uma passadinha lá no blog to te esperando *-*beijos
    http://www.lollimundodeprincesa.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Lolli!

      Fico super feliz que você tenha gostado.

      Se quiser acompanhar mais textos meus, por favor visite:
      www.correioelegante.blog.br

      beijo!

      Excluir
  2. Que lindo, Fernanda! :D
    Isso me lembrou quando eu morava na praia, passei minha infancia vestindo biquini o tempo todo e catando muuitas conchinhas na praia. Que fofo!

    Adorei,
    Beijinhos,
    Nina
    www.storytimestoryteller.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Nina!

      Adoro quando ocorre esse tipo de identificação!!

      Se quiser acompanhar mais textos meus, por favor visite:
      www.correioelegante.blog.br

      beijo!

      Excluir
  3. Uaaaal;
    Que lindooooo guria. Perfeito demais. Tua escrita correu maravilhosamente bem. Viajei em cada linha.Belíssimo.
    http://www.viciodiario.com/

    (to encantaaada *-*)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Gabriele

      Obrigada pelo elogio! Fico super feliz.

      Se quiser acompanhar mais textos meus, por favor visite:
      www.correioelegante.blog.br

      beijo!

      Excluir

O Blog Menina, te contei? é um blog de Moda, DIY e Lifestyle