A Natureza Íntima

Nada revitaliza mais as energias como espiar o céu, logo pela manhã. Deve ser porque ele é um recanto de todos – único teto comum. A luminosidade incomoda às vezes, mas também ajuda, como a maioria das coisas que causam incômodo.

Dia desses, o despertar amanheceu silencioso. Mudo; como um alarme que aposentou seu velocímetro. Não espiei o céu, não houve tempo. Esperei pelo elevador; optei pela escada. Desci, animada, oito andares. Não lembro se perdi o fôlego. De repente, minha respiração e meus batimentos cardíacos estavam misturados ao ruído da cidade. Tudo se movimentava em harmonia. As vans lotadas de crianças indo para a escola. Os sinaleiros sincronizados. As sombras vindas dos edifícios. As filas nos caixas das padarias. Tudo pulsava como um único ser que grita, respira e cospe vida – e não há nada mais belo do que isso.

Até então, nada fora do normal, exceto pela rota que foi alterada para economizar tempo. Estranho; até o momento, nunca havia considerado a ideia de descobrir outro caminho para o trabalho – existem tantos prazeres imediatos que não têm vez. Acontece que, nesse itinerário inexplorado, deparei-me com uma árvore. E não era uma árvore qualquer, fui totalmente hipnotizada por ela. Entregue ao presente e à sua beleza.

Sem perceber, fiquei dez minutos olhando para ela. E ela, assumidamente, encarava em resposta. Um estranhamento mútuo. O ar estava impregnado por alguma substância que nos tira de nosso estado natural, e que não conseguimos enxergar, nem dar forma. Despertar silencioso. Fui, lentamente, absorvendo cada detalhe. Encantei-me por suas folhas que transitavam desde o verde mais escuro, até um quase amarelo. Um arco-íris em tons de paz.

Foi um susto notar sua presença. Não tinha sequer suspeita de sua existência, de sua vivacidade incomum. Fiz de tudo para manter a alma dentro de mim, onde era seu lugar, mas alguma coisa puxava-a pra fora, como numa espécie de convite irrecusável. Alguma coisa daquele encontro fez com que ela ganhasse estímulo e energia e quisesse experimentar um mundo de possibilidades; ir além do espaço que eu lhe havia reservado.

O tempo passou para ou por mim? Estava tão imersa que não sei responder. Tudo tinha graça, tudo era vivo, as cores e as coisas todas mais intensas. Pensei em passagens e permanências e como a vida inteira funciona dessa maneira. Eu poderia, muito bem, ter passado reto, ter ignorado toda a força que exalava da árvore. Afinal, nunca tive ligações muito sólidas com a natureza. E nem tive interesse em tentar estabelecê-las. Ainda bem que existem coisas que são vistas, e nos tocam. Que são sentidas no íntimo do nosso ser. E que se tornam eternamente presente – na lembrança, no olhar, e no coração. Quando isso acontece, passam a ser parte da nossa beleza.

Os frutos da árvore serão eternos. Disso, não tenho dúvida. Segui meu caminho com a certeza de que ninguém sai do lugar sem saber onde está pisando. E somos guiados, nessa trajetória, pela paisagem que estamos dispostos a enxergar e criar dentro de nós.


Um comentário:

  1. Que texto MARAVILHOSO <3 Encantada com sua escrita!
    http://belapsicose.blogspot.com.br/

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